São cinco da manha e, ainda sonâmbulos, uns mulatos, escravos modernos, começam a erguer os ferros, dando forma às barracas. Estranhamente, a maioria está sorrindo. Nessa lógica doida, quanto menos se tem, mais se valoriza. Eles não têm nada e sorriem pra tudo.
Cinco e meia. Os primeiros feirantes chegam, encaixotados, amontoados em algo parecido com um carro, com suas mercadorias ainda encaixotadas, amontoadas em algo que não importa a forma, os fregueses não vão ver. Tudo é belo quando se esconde as frutas pobres por baixo das vistosas.
Seis e meia e a comida está posta. A porteira está aberta e a boiada pode escolher o que quiser, desde que pague. Preços pequenos, ofertas muitas. É preciso muito cuidado pra não comprar o desnecessário! A mãe puxa a filha antes que esta veja a barraca de pipocas. A dona puxa o cachorro antes que este veja a barraca de carnes. Essas crianças são gulosas, não se pode deixar ver, ou o estrago está feito.
Oito horas e todos já se amontoam. Uns arrastam carrinhos, outros filhos. É preciso sempre ter algo pra carregar as compras, os braços já não podem fazer tanto esforço. O cheiro da barraca de temperos disfarça o odor de morte na barraca de carnes ao lado. Há sempre uma maneira de disfarçar a crueldade com uma boa essência.
Às dez, vê-se um certo alvoroço numa barraca de frutas. Imaginem vocês que um maluco borrou de vermelho o rosto do vendedor que não quis lhe dar um desconto. Uma criança aparentemente gostou muito da cena, e ria da cara gorda e vermelha (não se sabe se de raiva ou molho de tomate) do feirante.
Uma e meia da tarde. Não há mais ninguém comprando. Aqui estão novamente os mulatos, escravos modernos, começando a descer os ferros, desmontando as barracas. O som das barras metálicas, batendo-se, soam como espadas numa luta ferrenha.
Três horas e já não se ouve ranger nada. Mais uma batalha está terminada.
“É preciso sempre ter algo pra carregar as compras…” – A palavra “algo” aqui é simplesmente perfeita… tudo pra gente é mercadoria, tudo é objeto. Algo se compra, algo carrega… (e não alguém)
Somos escravos hoje,amanhã e sempre.
De um jeito explicitamente submisso ou mesmo sendo “frutas podres por baixo das vistosas”, condicionados a qualquer sistema.
te carregaria no bolso não preferisse a sua companhia…
> Esperando os poemas <