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Aos volúveis

Aos que têm queda à loucura,
coitados, estão perdidos nesse mundo.
A sociedade os procura
e leva-os ao desespero profundo.

Na TV, aos maníacos, há verdadeiro ode.
No jornal, nas manchetes, o sangue escorre.
A gente se defende como pode,
desliga, fecha, corre!

Mas correr pra onde?
Pra escuridão?
Lá, damos com a fronte
desesperante da solidão.

Aos que têm queda à loucura,
coitados, estão perdidos nesse mundo.
A sociedade os procura
e leva-os ao desespero profundo.

Prioridades

A plebe pede pão.

Não querem cultura

preferem agricultura.

São cinco da manha e, ainda sonâmbulos, uns mulatos, escravos modernos, começam a erguer os ferros, dando forma às barracas. Estranhamente, a maioria está sorrindo. Nessa lógica doida, quanto menos se tem, mais se valoriza. Eles não têm nada e sorriem pra tudo.

Cinco e meia. Os primeiros feirantes chegam, encaixotados, amontoados em algo parecido com um carro, com suas mercadorias ainda encaixotadas, amontoadas em algo que não importa a forma, os fregueses não vão ver. Tudo é belo quando se esconde as frutas pobres por baixo das vistosas.

Seis e meia e a comida está posta. A porteira está aberta e a boiada pode escolher o que quiser, desde que pague. Preços pequenos, ofertas muitas. É preciso muito cuidado pra não comprar o desnecessário! A mãe puxa a filha antes que esta veja a barraca de pipocas. A dona puxa o cachorro antes que este veja a barraca de carnes. Essas crianças são gulosas, não se pode deixar ver, ou o estrago está feito.

Oito horas e todos já se amontoam. Uns arrastam carrinhos, outros filhos. É preciso sempre ter algo pra carregar as compras, os braços já não podem fazer tanto esforço. O cheiro da barraca de temperos disfarça o odor de morte na barraca de carnes ao lado. Há sempre uma maneira de disfarçar a crueldade com uma boa essência.

Às dez, vê-se um certo alvoroço numa barraca de frutas. Imaginem vocês que um maluco borrou de vermelho o rosto do vendedor que não quis lhe dar um desconto. Uma criança aparentemente gostou muito da cena, e ria da cara gorda e vermelha (não se sabe se de raiva ou molho de tomate) do feirante.

Uma e meia da tarde. Não há mais ninguém comprando.  Aqui estão novamente os mulatos, escravos modernos, começando a descer os ferros, desmontando as barracas. O som das barras metálicas, batendo-se, soam como espadas numa luta ferrenha.

Três horas e já não se ouve ranger nada. Mais uma batalha está terminada.

À delicadeza

O mundo está escasso de pessoas que compreendem a vida como uma imponente manifestação da arte, pura e profunda. A nossa terra clama por olhares que percebam cada rachadura de sua pele como um rogo por uma lágrima nascida da emoção diante do sensível. Os ventos nossos correm em profusão, varrendo rios e sertão, e ninguém mais os vê. Onde está você, linda que entende as cores? Onde está, flor que valoriza seus orvalhos? Sinto sua falta. Daqui, o mundo está escasso de pessoas que compreendem a vida como arte pulsante. Falta, no lado de cá, diante dos dias, a sensibilidade, pura e profunda.

* Um jeito singelo de dizer: estou com saudades, Yze.

Ao que se foi

Eu não sei se ainda está aqui, já faz alguns meses… imagino mesmo que não esteja, mas me ouça mesmo assim. Essa é a última visita que lhe faço, vim avisar que as cores voltaram, mas isso não lhe isenta a culpa.

Quando se foi assim, não pensou em todas as sombras que estava deixando pra trás, largadas. Nós, de cá, tínhamos planos, projetos os quais você era alicerce. O senhor desmoronou muitos dias felizes que ainda íamos viver. Não se deixa assim, à míngua, pessoas cultivadas por anos.

Não digo que os dias agora são feios e sem brilho, mas é inegável que você não pensou em avisar ninguém que ia parar de compor a vida conosco. Eu lhe tenho gratidão pelos dias com vida, pelas alegrias todas, as canções em coro, as belas paisagens. São realmente muito belas as lembranças. Mas os tempos agora são diferentes e tenho saudades.

Essa é a última visita que lhe faço, as cores voltaram e não há motivos para vir até aqui tentar te reaver de alguma forma. Você não voltará.

Diante disso, deixo aqui, nesta última rama de flores, minhas lágrimas e também um conselho, meu velho. Caso se vá novamente, não se esqueça de sair sem dilacerar. Não digo para se tornar frio e distante antes de sumir, não faça isso. Peço sim que ensine aos que convivem contigo a sorrir sem você do lado. Ensine-os que a felicidade existe depois de sua partida, pois aprender isso sozinho me custou um aperto no peito que me deixou completamente sem mundo. Enfim, por onde andar, meu amigo, ame e se faça amar. Faça-se amar sempre, mas, acima de tudo, liberte os que te amam antes de morrer. Esteja em paz.

Lembrança

12 de Julho de 2010

Minha linda,

Num caminhar leve, examinando as paredes e cores, você apareceu sem apresentar a menor pretensão. Eu também não dei conta de que era você ali. Seus passos iam embalados num silêncio de quem passa as paredes de uma exposição, se afeiçoando de pouco a pouco às fotografias penduradas pelo salão. Seus olhos iam me descobrindo, sorrateiros. Passava por meus retratos sem perguntar e, arrisco eu, às vezes, até sem entender. Passava apenas sentindo. Caminhando, espiando meus ângulos, entrando em mim.

Inocente, você veio me mostrando, de leve, seus perfumes, suas delicadezas. Nossas sintonias começaram a se clarear e você começou a se entranhar em meus pensamentos, lentamente. Lentamente, passei a admirar o seu silêncio, a profundidade dos seus olhos, seu corpo doce e puro, ainda livre de desejos… nossos primeiros toques se mostraram como a possibilidade de uma completude ainda desconhecida.

Com carinho, nos tocamos e, mesmo ainda acanhados, gostamos do gosto do contato. Vagarosamente, os dias foram nos entrelaçando. O tempo foi andando, e, passo a passo, você passou a completar meus retratos com teu sorriso. Meus sonhos se encontravam com seu colo e meu peito passou a ser o mais terno leito seu. Toque a toque, fundimo-nos. Eu e você, nos completando intimamente.

Afagos e sorrisos nos juntaram e criaram uma realidade nova, livre de toda solidão. Todo som era feito para nos embalar, toda cena era pretexto para carinhos, todo tempo era o momento para unir nosso calor. E nossos corpos se emaranharam. A força e a leveza se cruzavam entre nossas pernas e os lábios tinham como único sentido se tocar. Tínhamos o amor completamente refletido no embaraço de nossos corpos.

Depois dos corpos, no momento da alma, nossos olhos se encontraram. Descobrimos o aconchego que o abraço tem, a alegria que a simples presença consegue criar. Então, momentos de silêncio, lado a lado, se mostraram muito mais afáveis do que horas de palavras soltas. Aqui, a palavra já não era tão necessária. Vivíamos o instante de um amor suave e infinitamente profundo. Doçura e afago reinavam.

Mas como nada mais há depois do encontro das almas, não tínhamos mais como estar. E se todo amor deve ter um fim, posto que tudo acaba, acabamos decidindo pelo eterno. Já que a vida impõe distâncias, já que o curso do mundo pede um rumo solitário, instituímos o carinho infinito e a linda lembrança. Lembrança essa que, para sempre, nos trará um velho sorriso, sorriso suave e infinitamente profundo.

Com amor,

Fernando.

É preciso, necessariamente, parar.
Não raro, Oliver tinha certeza do que queria. Certezas são coisas muito escorregadias, penso eu. Melhor ainda, certezas são muito maleáveis. Não raro, Oliver tinha certeza de seus planos e se punha a seguir o rumo da estrela que sonhara. Ele tinha muitos sonhos, sem dúvida, e não se cansava de acreditar que todos podiam, de fato, tomar vida. A verdade é que Oliver andava munido de profunda certeza.
A vida de nosso andarilho era um constante sonhar, acreditar, correr atrás e, fatidicamente, se perder. Oliver não entendia bem por que o caminho do sonho, no começo tão reto, poderia se perder dele assim, tão sorrateiramente, mesmo com sua enorme certeza. No começo de sua jornada apontava para o sonho e ia. Quando se via, estava longe, muito longe do destino agendado. Certezas, meus amigos, são muito maleáveis, e isso o jovem Oliver não conseguia perceber.
Não seria correto dizer que o caminho, ele mesmo, muda. É o pensamento, não o caminho, que se inebria. É o pensar que transforma, sordidamente, a velha certeza em um rumo outro. Não só o pensamento, mas setas do caminho também, muito frequentemente, podem estar viradas, desorientadas, convidando-nos a outros sonhos, não o nosso.
Oliver se perde e, andando assim, sempre se perderá. É a sina dos que só correm atrás de um sonho. É preciso dar os passos, sem dúvida, mas é preciso, necessariamente, parar. Parar e se lembrar qual é o caminho de nossos sonhos. Caso contrário, vamos parar em sonhos alheios. Vamos, de maneira muito triste, nos perder de nossos sonhos.
Somos dotados com a doce virtude de sonhar. Não percamo-nos no caminho, queridos, que de desespero se cobrem os que se descobrem perdido do próprio sonho. É preciso, necessariamente, parar, caros meus. Parar e lembrar: onde está seu sonho?