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Archive for janeiro \23\UTC 2010

Carta dos que habitam as águas

Oceano Índico, 27 de Janeiro de 1913.

Querida,

Hoje a mão da saudade me veio sufocar o peito e então resolvi mandar-lhe essas linhas. Dois anos foram navegados e lembro-me, quase a todo instante, do porto se distanciando, levando consigo seus olhos molhados. Vi sua imagem se diminuindo lentamente, como que me avisando que o tempo não faria o menor esforço para passar.

Em horas como essa, gosto de lembrar como não conseguia parar de estalar os dedos quando estava à sua espera. Ou como meu coração saía aos pulos quando estava há segundos de te ver. Revejo nossas velhas fotos, nossos risos e carinhos ali congelados. As fotos me trazem aquele velho sorriso de volta, aquele que saía sem pedir licença e que denunciava sempre meu imenso prazer em estar ao seu lado. E releio nossas cartas, relembro nossos antigos sonhos, procuro seu perfume de violetas no ar desse mar que faz tudo parecer tão eterno. A vastidão das águas tortura os que sentem saudade de uma maneira terrível.

Escrevo-te para lembrar que somente mais um inverno falta para o navio atracar. Até lá, noite após noite, em sonho, ao teu encontro irei. Você, com a cabeça repousada em meu peito e eu, alisando-te a face, te farei sorrir um sorriso calmo e confortável. Hoje a mão da saudade me veio sufocar o peito e essas linhas são meu coração, que é só espera. Essas linhas são, em verdade, minha alma. Guarde-a por mim.

Seu eterno amante,

Navegante.

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Às cegas

Estou cego. Não cego, desses que, de repente, se prendem no escuro pra sempre, mas cego porque as coisas que eu antes via, deram pra desaparecer. Tudo anda sumido. Eu entro numa sala e, de repente, ela está completamente vazia. Quer dizer, eu ainda enxergo, portanto, a culpa não é minha, são as coisas que somem.

Outro dia mesmo… eu moro sozinho. Confesso, um lugar é enorme para uma pessoa só, mas, cá entre nós, a casa de um homem é exatamente do tamanho de quem ali vive. E é tudo meu. Portas e janelas minhas. Cadeados e fechaduras, tudo me pertence. Pois bem, outro dia mesmo fui à cozinha pegar algo pra beber e, quando voltei para o quarto, que susto! Tudo sumido. Cama, colchão, travesseiros… nem sinal. Meus sapatos e meias, camisas e calças, como que num passe de mágica, desintegrados assim, no ar. O quarto estava só em paredes. No prazo de um pulo na cozinha, doutor, no tempo de um copo d’água!

O que fiz? Ora, pensei logo: um assalto! Aproveitaram a janela aberta e zarparam pra dentro. Esses safados estão cada vez mais rápidos. Polícia? Chamei, claro! E aí que a bagunça começou de vez. Chegaram, olharam tudo e, por fim, antes de ir embora, um deles me bate no ombro e diz: nós poderíamos até tentar encontrá-los, mas prisão por furto de nada além do ar, só em cabeça de maluco. Eu não estou maluco, doutor. Sei muito bem o que vi, ou melhor, o que não vi. O quarto estava completamente nu, eu juro!

Mas tudo bem, pensei comigo, esses policiais adoram zombar com gente que está na pior. No mínimo viram que era impossível achar os meliantes que me roubaram e, pra não perderem a viagem, trataram logo de arrumar uma troça com minha cara. Mas não, não ficou tudo bem. Daí pra frente, as coisas só pioraram. Do quarto pra sala, daí a cozinha, banheiros, a casa, o bairro, tudo desaparecido. Foi aqui que resolvi te procurar. Não acho de todo ruim andar por aí sem nada pra me atravancar o caminho, mas não é muito agradável esse pressentimento que, assim como as coisas, as pessoas também vão acabar por me sumir da vista, como um velho que vai perdendo os próximos ao passo que a idade vai colocando-lhe camadas de rudeza na face. Não quero ser um velho ainda novo. Portanto, doutor, vim até aqui não pra me livrar da cegueira das coisas, que, pesando bem, acaba me facilitando muito a vida. Quero livramento da ausência de homens, quero que faça desaparecer esse frio que me assola. Que desapareça o medo da solidão. Alias, medo não, até porque, pensando bem, solidão para homens como eu, que são de todo tão bons, tão completos, não existe… Se me julgo auto-suficiente? Sim, mas o problema é que, até para mim, fica de bom grado uma diversão às vezes. É sempre bem engraçado ver todos vocês, incompletos e frágeis, necessitados da minha presença. Isso mesmo, doutor, que as pessoas não sumam de minha vista para que elas não se percam. O norte sou eu!

Uma receita pra mim? Sim, foi atrás disso que vim, escreva-a então! Vamos doutor, mais ligeiro, que eu, como viu, acabei de atinar que tenho muitos por aí que precisam de mim pra apontar a direção certa. Doutor? O senhor está diminuindo? Eu te diminuí? E a receita? As coisas não sumiram e sim encolheram? Doutor?  Sumiu. Ao menos escreveu a receita. Vejamos:

“Aos olhos dos gigantes, prata é gêmea de pedra bruta e pobre. Em suas altezas, pisoteiam, sem ao menos notar, riquezas imemoráveis. Para ver ressurgir a terra, o único remédio é desfitar do céu.”

Ora veja, eu lhe peço comprimidos e você me vem com fábulas infantis. Pois fique aí encolhido então, eu não preciso de você. Olhe em volta, fora desse consultório ainda há milhares pra me servir!

Mas que rua vazia… ela não estava assim, estava? Alguém? …

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