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Archive for julho \20\UTC 2010

Ao que se foi

Eu não sei se ainda está aqui, já faz alguns meses… imagino mesmo que não esteja, mas me ouça mesmo assim. Essa é a última visita que lhe faço, vim avisar que as cores voltaram, mas isso não lhe isenta a culpa.

Quando se foi assim, não pensou em todas as sombras que estava deixando pra trás, largadas. Nós, de cá, tínhamos planos, projetos os quais você era alicerce. O senhor desmoronou muitos dias felizes que ainda íamos viver. Não se deixa assim, à míngua, pessoas cultivadas por anos.

Não digo que os dias agora são feios e sem brilho, mas é inegável que você não pensou em avisar ninguém que ia parar de compor a vida conosco. Eu lhe tenho gratidão pelos dias com vida, pelas alegrias todas, as canções em coro, as belas paisagens. São realmente muito belas as lembranças. Mas os tempos agora são diferentes e tenho saudades.

Essa é a última visita que lhe faço, as cores voltaram e não há motivos para vir até aqui tentar te reaver de alguma forma. Você não voltará.

Diante disso, deixo aqui, nesta última rama de flores, minhas lágrimas e também um conselho, meu velho. Caso se vá novamente, não se esqueça de sair sem dilacerar. Não digo para se tornar frio e distante antes de sumir, não faça isso. Peço sim que ensine aos que convivem contigo a sorrir sem você do lado. Ensine-os que a felicidade existe depois de sua partida, pois aprender isso sozinho me custou um aperto no peito que me deixou completamente sem mundo. Enfim, por onde andar, meu amigo, ame e se faça amar. Faça-se amar sempre, mas, acima de tudo, liberte os que te amam antes de morrer. Esteja em paz.

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Lembrança

12 de Julho de 2010

Minha linda,

Num caminhar leve, examinando as paredes e cores, você apareceu sem apresentar a menor pretensão. Eu também não dei conta de que era você ali. Seus passos iam embalados num silêncio de quem passa as paredes de uma exposição, se afeiçoando de pouco a pouco às fotografias penduradas pelo salão. Seus olhos iam me descobrindo, sorrateiros. Passava por meus retratos sem perguntar e, arrisco eu, às vezes, até sem entender. Passava apenas sentindo. Caminhando, espiando meus ângulos, entrando em mim.

Inocente, você veio me mostrando, de leve, seus perfumes, suas delicadezas. Nossas sintonias começaram a se clarear e você começou a se entranhar em meus pensamentos, lentamente. Lentamente, passei a admirar o seu silêncio, a profundidade dos seus olhos, seu corpo doce e puro, ainda livre de desejos… nossos primeiros toques se mostraram como a possibilidade de uma completude ainda desconhecida.

Com carinho, nos tocamos e, mesmo ainda acanhados, gostamos do gosto do contato. Vagarosamente, os dias foram nos entrelaçando. O tempo foi andando, e, passo a passo, você passou a completar meus retratos com teu sorriso. Meus sonhos se encontravam com seu colo e meu peito passou a ser o mais terno leito seu. Toque a toque, fundimo-nos. Eu e você, nos completando intimamente.

Afagos e sorrisos nos juntaram e criaram uma realidade nova, livre de toda solidão. Todo som era feito para nos embalar, toda cena era pretexto para carinhos, todo tempo era o momento para unir nosso calor. E nossos corpos se emaranharam. A força e a leveza se cruzavam entre nossas pernas e os lábios tinham como único sentido se tocar. Tínhamos o amor completamente refletido no embaraço de nossos corpos.

Depois dos corpos, no momento da alma, nossos olhos se encontraram. Descobrimos o aconchego que o abraço tem, a alegria que a simples presença consegue criar. Então, momentos de silêncio, lado a lado, se mostraram muito mais afáveis do que horas de palavras soltas. Aqui, a palavra já não era tão necessária. Vivíamos o instante de um amor suave e infinitamente profundo. Doçura e afago reinavam.

Mas como nada mais há depois do encontro das almas, não tínhamos mais como estar. E se todo amor deve ter um fim, posto que tudo acaba, acabamos decidindo pelo eterno. Já que a vida impõe distâncias, já que o curso do mundo pede um rumo solitário, instituímos o carinho infinito e a linda lembrança. Lembrança essa que, para sempre, nos trará um velho sorriso, sorriso suave e infinitamente profundo.

Com amor,

Fernando.

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