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Archive for the ‘Prosa’ Category

Lembrança

12 de Julho de 2010

Minha linda,

Num caminhar leve, examinando as paredes e cores, você apareceu sem apresentar a menor pretensão. Eu também não dei conta de que era você ali. Seus passos iam embalados num silêncio de quem passa as paredes de uma exposição, se afeiçoando de pouco a pouco às fotografias penduradas pelo salão. Seus olhos iam me descobrindo, sorrateiros. Passava por meus retratos sem perguntar e, arrisco eu, às vezes, até sem entender. Passava apenas sentindo. Caminhando, espiando meus ângulos, entrando em mim.

Inocente, você veio me mostrando, de leve, seus perfumes, suas delicadezas. Nossas sintonias começaram a se clarear e você começou a se entranhar em meus pensamentos, lentamente. Lentamente, passei a admirar o seu silêncio, a profundidade dos seus olhos, seu corpo doce e puro, ainda livre de desejos… nossos primeiros toques se mostraram como a possibilidade de uma completude ainda desconhecida.

Com carinho, nos tocamos e, mesmo ainda acanhados, gostamos do gosto do contato. Vagarosamente, os dias foram nos entrelaçando. O tempo foi andando, e, passo a passo, você passou a completar meus retratos com teu sorriso. Meus sonhos se encontravam com seu colo e meu peito passou a ser o mais terno leito seu. Toque a toque, fundimo-nos. Eu e você, nos completando intimamente.

Afagos e sorrisos nos juntaram e criaram uma realidade nova, livre de toda solidão. Todo som era feito para nos embalar, toda cena era pretexto para carinhos, todo tempo era o momento para unir nosso calor. E nossos corpos se emaranharam. A força e a leveza se cruzavam entre nossas pernas e os lábios tinham como único sentido se tocar. Tínhamos o amor completamente refletido no embaraço de nossos corpos.

Depois dos corpos, no momento da alma, nossos olhos se encontraram. Descobrimos o aconchego que o abraço tem, a alegria que a simples presença consegue criar. Então, momentos de silêncio, lado a lado, se mostraram muito mais afáveis do que horas de palavras soltas. Aqui, a palavra já não era tão necessária. Vivíamos o instante de um amor suave e infinitamente profundo. Doçura e afago reinavam.

Mas como nada mais há depois do encontro das almas, não tínhamos mais como estar. E se todo amor deve ter um fim, posto que tudo acaba, acabamos decidindo pelo eterno. Já que a vida impõe distâncias, já que o curso do mundo pede um rumo solitário, instituímos o carinho infinito e a linda lembrança. Lembrança essa que, para sempre, nos trará um velho sorriso, sorriso suave e infinitamente profundo.

Com amor,

Fernando.

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O caminho do sonho

É preciso, necessariamente, parar.
Não raro, Oliver tinha certeza do que queria. Certezas são coisas muito escorregadias, penso eu. Melhor ainda, certezas são muito maleáveis. Não raro, Oliver tinha certeza de seus planos e se punha a seguir o rumo da estrela que sonhara. Ele tinha muitos sonhos, sem dúvida, e não se cansava de acreditar que todos podiam, de fato, tomar vida. A verdade é que Oliver andava munido de profunda certeza.
A vida de nosso andarilho era um constante sonhar, acreditar, correr atrás e, fatidicamente, se perder. Oliver não entendia bem por que o caminho do sonho, no começo tão reto, poderia se perder dele assim, tão sorrateiramente, mesmo com sua enorme certeza. No começo de sua jornada apontava para o sonho e ia. Quando se via, estava longe, muito longe do destino agendado. Certezas, meus amigos, são muito maleáveis, e isso o jovem Oliver não conseguia perceber.
Não seria correto dizer que o caminho, ele mesmo, muda. É o pensamento, não o caminho, que se inebria. É o pensar que transforma, sordidamente, a velha certeza em um rumo outro. Não só o pensamento, mas setas do caminho também, muito frequentemente, podem estar viradas, desorientadas, convidando-nos a outros sonhos, não o nosso.
Oliver se perde e, andando assim, sempre se perderá. É a sina dos que só correm atrás de um sonho. É preciso dar os passos, sem dúvida, mas é preciso, necessariamente, parar. Parar e se lembrar qual é o caminho de nossos sonhos. Caso contrário, vamos parar em sonhos alheios. Vamos, de maneira muito triste, nos perder de nossos sonhos.
Somos dotados com a doce virtude de sonhar. Não percamo-nos no caminho, queridos, que de desespero se cobrem os que se descobrem perdido do próprio sonho. É preciso, necessariamente, parar, caros meus. Parar e lembrar: onde está seu sonho?

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Nascer com o Sol

Todos os dias ela vai ver o Sol nascer. Nascer com o Sol. A luz vem lhe fechar os olhos e iluminar a paz que resplandece de sua face. O sorriso leve e o inspirar fundo enchem o coração com um conforto equivalente ao do homem que respira após quase se afogar.

Acaba de nascer, pois, ao entender que de nada valem as lembranças, é como a fênix, que se faz cinza para retomar o vermelho vibrante. Suicídio ao fim de cada dia para o novo amanhecer não ter correntes. Todos os dias ela vai ver o Sol nascer. Nascer com o Sol.

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O amor

Campo do Amor, 15 de Fevereiro de 2010.

Meu caro,

Imagine esta cena. Um gramado muito verde e calmo. A luz do Sol beija-te a pele, aquecendo e confortando cada pedaço teu.  O vento passa os dedos carinhosamente em teu rosto, serenando qualquer inquietude tua. A poucos metros adiante, um sereno riacho, que passa ecoando o som das águas calmas. Frondosas árvores, completando a sinfonia, fazem dançar suas folhas, que se rebatem criando a melodia da natureza. Sob uma delas tu e teu amor, recostado em teus braços, sentados, livres e completos.

Agora tudo é possível, tudo é eterno e infinito. Imagine essa cena, meu caro. Sinta-te infinito.  Esse é o amor. Tens amor e, por isso, também tens tudo. O amor que liberta. Ouça-me bem, rapaz. Ame. Entregue-te completamente ao teu amor. E depois de despencar no desconhecido mundo de outrem, depois de libertar-te completamente de ti e ver-te completamente exposto em sentimentos, te encontrarás completo. Completamente acolhido pelo amor. Sinta, meu amigo.
Um homem que ama,
Fernando Marinho.

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Carta dos que habitam as águas

Oceano Índico, 27 de Janeiro de 1913.

Querida,

Hoje a mão da saudade me veio sufocar o peito e então resolvi mandar-lhe essas linhas. Dois anos foram navegados e lembro-me, quase a todo instante, do porto se distanciando, levando consigo seus olhos molhados. Vi sua imagem se diminuindo lentamente, como que me avisando que o tempo não faria o menor esforço para passar.

Em horas como essa, gosto de lembrar como não conseguia parar de estalar os dedos quando estava à sua espera. Ou como meu coração saía aos pulos quando estava há segundos de te ver. Revejo nossas velhas fotos, nossos risos e carinhos ali congelados. As fotos me trazem aquele velho sorriso de volta, aquele que saía sem pedir licença e que denunciava sempre meu imenso prazer em estar ao seu lado. E releio nossas cartas, relembro nossos antigos sonhos, procuro seu perfume de violetas no ar desse mar que faz tudo parecer tão eterno. A vastidão das águas tortura os que sentem saudade de uma maneira terrível.

Escrevo-te para lembrar que somente mais um inverno falta para o navio atracar. Até lá, noite após noite, em sonho, ao teu encontro irei. Você, com a cabeça repousada em meu peito e eu, alisando-te a face, te farei sorrir um sorriso calmo e confortável. Hoje a mão da saudade me veio sufocar o peito e essas linhas são meu coração, que é só espera. Essas linhas são, em verdade, minha alma. Guarde-a por mim.

Seu eterno amante,

Navegante.

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Às cegas

Estou cego. Não cego, desses que, de repente, se prendem no escuro pra sempre, mas cego porque as coisas que eu antes via, deram pra desaparecer. Tudo anda sumido. Eu entro numa sala e, de repente, ela está completamente vazia. Quer dizer, eu ainda enxergo, portanto, a culpa não é minha, são as coisas que somem.

Outro dia mesmo… eu moro sozinho. Confesso, um lugar é enorme para uma pessoa só, mas, cá entre nós, a casa de um homem é exatamente do tamanho de quem ali vive. E é tudo meu. Portas e janelas minhas. Cadeados e fechaduras, tudo me pertence. Pois bem, outro dia mesmo fui à cozinha pegar algo pra beber e, quando voltei para o quarto, que susto! Tudo sumido. Cama, colchão, travesseiros… nem sinal. Meus sapatos e meias, camisas e calças, como que num passe de mágica, desintegrados assim, no ar. O quarto estava só em paredes. No prazo de um pulo na cozinha, doutor, no tempo de um copo d’água!

O que fiz? Ora, pensei logo: um assalto! Aproveitaram a janela aberta e zarparam pra dentro. Esses safados estão cada vez mais rápidos. Polícia? Chamei, claro! E aí que a bagunça começou de vez. Chegaram, olharam tudo e, por fim, antes de ir embora, um deles me bate no ombro e diz: nós poderíamos até tentar encontrá-los, mas prisão por furto de nada além do ar, só em cabeça de maluco. Eu não estou maluco, doutor. Sei muito bem o que vi, ou melhor, o que não vi. O quarto estava completamente nu, eu juro!

Mas tudo bem, pensei comigo, esses policiais adoram zombar com gente que está na pior. No mínimo viram que era impossível achar os meliantes que me roubaram e, pra não perderem a viagem, trataram logo de arrumar uma troça com minha cara. Mas não, não ficou tudo bem. Daí pra frente, as coisas só pioraram. Do quarto pra sala, daí a cozinha, banheiros, a casa, o bairro, tudo desaparecido. Foi aqui que resolvi te procurar. Não acho de todo ruim andar por aí sem nada pra me atravancar o caminho, mas não é muito agradável esse pressentimento que, assim como as coisas, as pessoas também vão acabar por me sumir da vista, como um velho que vai perdendo os próximos ao passo que a idade vai colocando-lhe camadas de rudeza na face. Não quero ser um velho ainda novo. Portanto, doutor, vim até aqui não pra me livrar da cegueira das coisas, que, pesando bem, acaba me facilitando muito a vida. Quero livramento da ausência de homens, quero que faça desaparecer esse frio que me assola. Que desapareça o medo da solidão. Alias, medo não, até porque, pensando bem, solidão para homens como eu, que são de todo tão bons, tão completos, não existe… Se me julgo auto-suficiente? Sim, mas o problema é que, até para mim, fica de bom grado uma diversão às vezes. É sempre bem engraçado ver todos vocês, incompletos e frágeis, necessitados da minha presença. Isso mesmo, doutor, que as pessoas não sumam de minha vista para que elas não se percam. O norte sou eu!

Uma receita pra mim? Sim, foi atrás disso que vim, escreva-a então! Vamos doutor, mais ligeiro, que eu, como viu, acabei de atinar que tenho muitos por aí que precisam de mim pra apontar a direção certa. Doutor? O senhor está diminuindo? Eu te diminuí? E a receita? As coisas não sumiram e sim encolheram? Doutor?  Sumiu. Ao menos escreveu a receita. Vejamos:

“Aos olhos dos gigantes, prata é gêmea de pedra bruta e pobre. Em suas altezas, pisoteiam, sem ao menos notar, riquezas imemoráveis. Para ver ressurgir a terra, o único remédio é desfitar do céu.”

Ora veja, eu lhe peço comprimidos e você me vem com fábulas infantis. Pois fique aí encolhido então, eu não preciso de você. Olhe em volta, fora desse consultório ainda há milhares pra me servir!

Mas que rua vazia… ela não estava assim, estava? Alguém? …

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